A avaliação psicológica para fins periciais é um trabalho altamente complexo. Sua finalidade é “trazer luz” para a questão que está sendo discutida no judiciário, e que envolve o conhecimento especializado da Psicologia. Pode ser realizada com uma única pessoa, com supostas vítimas, com supostos agressores, com ex-casais, com crianças, com várias pessoas, sendo que a forma que será realizada dependerá da demanda do caso e dos quesitos que forem formulados pelas partes e pelo juízo.
Os quesitos irão determinar o escopo da perícia, ou seja, o objetivo principal que devemos, como peritas (os) buscar responder da melhor forma possível, cientes de que nosso documento (laudo psicológico pericial) poderá ajudar, como prova, o juízo a definir a vida de uma pessoa, uma família, ou a vida de muitos outros envolvidos no caso.
Como aliados, dispomos de testes psicológicos, que podem ser utilizados a partir de um conhecimento e expertise construído com qualificação, evitando-se problemas de sua má utilização nesse contexto.
Você sabe fazer avaliação psicológica? Você conhece diversos testes psicológicos e sabe definir quais os mais indicadas para cada caso? Você tem capacitação para colher os dados principais do caso e sintetizá-los na forma de um documento psicológico? Seu laudo é “blindado” contra críticas de assistentes técnicos das partes em seus pareceres? E seu trabalho é protegido de questionamentos técnicos, não havendo possibilidade de ser encaminhada uma denúncia no Conselho Regional de Psicologia?
A competência sólida e a atualização constante são obrigatórias nesse contexto!
Os documentos que uma psicóloga (o) pode produzir tem fundamentação na Resolução 06/2019 do Conselho Federal de Psicologia. Ali estão definidos as declarações, atestados, relatórios, laudos e pareceres, além de orientações éticas e a respeito da linguagem a ser utilizada e outros detalhes.
Porém, muitos psicólogos ainda produzem documentos com falhas, as mais diversas, tais como o conteúdo ser incompreensível, abuso de inferências, posicionamentos que extrapolam a responsabilidade do profissional e outras possibilidades. Não raro tais documentos são alvo de denúncias éticas ao Conselho.
Há muitas dúvidas que permeiam a elaboração de documentos: quais dados são relevantes informar? Que informações são possíveis de serem sintetizadas ou até mesmo dispensadas? Como ser objetivo e conciso na apresentação dos resultados? Como apresentar resultados de testes psicológicos? E sobre a conclusão, que cuidados preciso ter?
Fazer documentos não é tarefa simples, especialmente no contexto clínico, onde pode haver pedidos de documentos com a finalidade de uso jurídico. A supervisão é muito importante, devendo acontecer ao menos no início da trajetória do profissional, visando sua sustentação argumentativa e evitando problemáticas por vezes não evidentes ao colega iniciante.
No mundo atual, ter um diagnóstico passou a ser importante, quase vital: estamos o tempo todo utilizando as siglas que nomeiam os transtornos psicológicos, após consultar o DSM-5-R ou o CID 11. Quando se trata do uso profissional, é compreensível: o diagnóstico psicológico/psiquiátrico irá delimitar o tratamento posterior, o medicamento a se usado, etc. Porém, o que dizer dos autodiagnósticos?
As pessoas estão buscando informações em redes sociais ou em sites leigos ou de profissionais da saúde mental e assumindo denominações diagnósticas, como se isso lhe trouxesse algum alívio ou sentido... E cá estamos, nós, psicólogos, às voltas com TDAH, TOD, TAG, TEA, TAB e outros... quando não são combinados... e para complicar ainda mais, as chamadas “comorbidades”, com combinações de transtornos e sintomas...
É possível que tais demandas busquem resposta a questões sobre a existência, sobre a angústia de existir, sobre o sofrimento psicológico sentido, que encontram nas siglas dos transtornos uma resposta que pode vir a diminuir a angústia do não-saber.
Mas encaixar as pessoas em categorias é uma obra muito difícil, pois se trata de negar a existência da subjetividade, da história e das possibilidades de um sujeito único e inigualável... Nenhum autista é igual ao outro, nenhum depressivo tem a mesma história que outro, não há padrões no comportamento humano.
Quando avaliamos um suposto autista, não podemos esquecer que antes de mais nada ele é uma pessoa e não um “amontoado” de sintomas diagnósticos. Atendemos pessoas e não critérios, e algumas vezes, com base em uma profunda avaliação, somos levados a negar a sigla que a pessoa se atribui, pois o entendimento da dinâmica da personalidade é mais importante que uma sigla autoatribuída. O caminho da avaliação psicológica deve ser a compreensão do indivíduo que nos procura, e o diagnóstico pode ser uma das conclusões de um processo de avaliação bem conduzido, mas não necessariamente o único.
